6.9.23

Maurice Ravel

Criei em mim, ambições de castelos de cartas. 
Aprendi que não nasci para ir além daquilo que não consigo ser. Não consigo me compor num filme de narração do Woody Allen ou em fotografias coloridas do wes Anderson. 

Não te sinto. Trago em mim uma anestesia intocável que não revejo. Criei uma fé inegável e um trago a cansaço que não esperava em mim. Não me cabe na conjuntura das palavras dizer que não me fiz feliz na vida, mas não me sinto escrita. 
Não encontro-me na descrição e na definição deste projetar de emoções e não me imaginei tão fria. 
Sinto-me cansada no saber da palavra e da saudade do sentir. Não que não sinta, mas não sentir um tanto. 
Perder-me em mim, sem pensar no peso.

Sinto falta de um piano na sala e de me deixar chorar nas cores de cinza que tenho e não me permito sentir. 
Sinto falta do espaço vazio por encher com todos na sala. 

Coloquei velas na esperança que te lembre até morrer e na esperança que me escape dos males que te levaram as dores. Não as condeno. Foste feliz nesse mundo onde refugiaste com ilusões a nós tão tolas.

Não me tornei bailarina e escapou os dedos do piano. Não me expus na escrita e me escondi no refúgio do desenho. 
Virei banal. 
Não me tornei genial. Não sei tolerar o infame para além do que suporto. 
Incompreendi a poesia, a geografia e ainda mais a filosofia. Não me deixei ler ou cansar. 

Que falta me fazes. Que falta me faz quem lê apenas pela mão. 
Até um dia, para sempre Minha Maria. 

17.1.23

Tiago

Oi mor.
Obrigada. 

Pelo milímetro de cada trejeito e por o mundo ir embora no teu riso. Pelo tilintar dos dedos que deixei passearem nas minhas cicatrizes. Pelo trajeto nunca ter sido difícil. 

És a partitura mais bonita. 

Que a tua genialidade me dê piruetas. Que entendas que nem sempre sou feita das palavras. Que gostes do sol e de mim.
Que subas todas as árvores para ver o mundo. Que não desistas de correr.
Que corras e que nunca te falte a conjuntura de saber ser, saber viver e saber rir. 

Espero um dia construir contigo um jardim bonito, onde tentas decifrar as constelações e me deixes apreciar o trovejar. 
Onde os sonhos não sejam nunca só sonhos. 

12.12.22

Maria

Não sei se já te dei o nome no título. 
Na verdade, a vida é feita de repetições. Erros e manobras do engano.
Gasto-me nas saudades e no fingimento do esquecimento. 
Guardo tesouros de cachos claros nos risos da alma e no que me recordo nos outros.
Compreendo-te nas noites em que danço e nas retrospectivas ao espelho.
Nunca ninguém escolheu o amor. 
Espero sentir-te nas melodias do piano que a vida não me ensinou a tocar. Nos pés que tocam a areia fria do inverno, nos teus muros verdes do musgo e que não podemos caiar.
Ninguém cuida do teu mundo ou do jardim que num minuto se dá a volta. Não floresce amor.
Sinto em mim, a distância de me proteger e a insegurança de me fingir menos. Tinhas amor no trejeito do riso.  
Tinhas sempre como me ensinar a olhar. 
Eternamente um até já, Maria. 

1.8.22

Carta ao coração

Oi vó. Sonhei que chegavas com os pássaros. No amenizar da dor e nas melodias do vento. 
Carreguei um sorriso pela manhã porque te ouvi falar ao ouvido "anda carochinha". E sorri. 
A vida é bonita como se de um jardim se tratasse. 
Tenho saudades das rugas e dos sinais das palmas da mão. Do futuro que nos desenhaste em cartelas de cores claras. 
Não soube dançar ao som da vida mas tenho ido ao compasso do amor. Não esqueço nunca de agradecer ao sol e à chuva, das mudanças que ocorrem em nós. Nunca esquecer quem no peito nos fez casa e de quem nos perdemos em risos pelos cabelos. 
Quero que saibas que espero sempre vir a ser mais, ser melhor, ser capaz. Que o mano vai bem e o pai também. 
Que esta casa que construímos é nos pilares que nos deixaste.
Não há pilar melhor. 
Já dizia a canção "guarda um cantinho na tua nuvem para eu um dia eu lá morar".
Até logo.

cenas: