20.3.14

Nem sei, bem sei

Se tenho medo? Não meu anjo. O meu corpo permanece o de uma bailarina sem chão, jovem, puro neste desalinho sem encanto em pés tortos do qual o meu pai sempre ralhava " põe-me esses pés direitos".
Direito, pequena. É uma palavra tão cruel para quem nunca a conheceu.
O lado direito, fazer tudo direito, o acertado vem um pouco da família do direito. Nem sei, bem sei. 
O direito nunca definiu o meu corpo e tão pouco a minha alma. Este meu corpo já meio curvado mostra que os poucos anos que carrego já me pesam mais do que os anos de um ser idoso. Como a avó, a avó trás no rosto a tristeza de um ser próprio na idade mas por vezes um brilho do olhar comum na juventude de quem sabe amar.
Ora, digamos que nesta minha curta e mal vivida vida, perdi todo esse brilho, essa vontade espontânea que também te corre nas veias, uma espécie de heroína que trás a electricidade e faz-te dizer " mamã quando for grande quero ser bailarina". A vontade de fugir para saberes a sensação do que é voltar, o sonhar alto de tão alto que ao cair a vida te ensine que o teu perfil é apenas esse. Só esse e mais nenhum. E mais uma vez, o pai mostrou razão, uma das tais que ele tem sem saber como, ele disse " não tens iniciativa para nada".
Verdade, pai. Verdade. E lamento, pois este meu perfil mostrou apenas o que a vida me quis mostrar é que pelos vistos, pequena, somos boas a desistir.

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