12.7.18

queda livre:

Vi-te cair. Eras pequeno e trazias as asas partidas, pisavas o chão como quem pisa o inconstante do tempo. Eras pequeno e o mundo cresceu em ti conforme os passos que deste.
Vi-te crescer numa queda vertiginosa contra as horas.
O mundo não foi feito para nós.
Nascemos de pedaços desgarrados do amor dos outros, somos filhos que não sabem amar e mostrar que sentir é algo maior e nós somos pequenos.
Somos ultrapassados pela vida pequena dos outros. Somos a diferença do mundo, o sofrimento dos demais. Sentimos a sorrir sem nunca chorar. Fomos ancoras de barcos velhos e chapéus esquecidos em cabides.
Soubemos ser poetas sem saber o que exprimir e terra dos nómadas sem casa.
São uma vastidão de erros ao longo da nossa escrita.
Que se abra a alma dos bebêdos pelas festas que preferimos.
Foste maior e soubeste gritar socorro enquanto se abafava os segredos nas portas dos quartos.
Que seja sempre o melhor de mim e saiba sempre fugir do pior.
Que o egoísmo me defina e a gratidão nunca se afaste. Que seja livre. Que sejas livre. Deus queira que nenhum Ser te parta as asas e te faça pisar este chão onde se deitam os mal amados. Que escrevas e que dances. Que dances no chuveiro e laves o cabelo com amaciador. Que sejas o pó da terra onde brincaste e que nunca te esqueças de perdoar, tu sempre perdoas. Que nunca te esqueças que na casa lá de baixo viste o amor que te viu cair quando eras pequeno e trazias as asas partidas. Era o amor mais bonito das nossas vidas, as asas nas nossas quedas.

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